Foram seis anos Bizarros

No meio dos posts antigos, transferidos para o Sanktio Comix do Endominus, encontrava-se uma reflexão feita por altura da minha despedida do Bizarro, enquanto editor e autor.

Quando me “demiti” do cargo enviei uma carta aberta aos colaboradores explicando os motivos, o que serviu de base para o Pedro Mota realizar umas comparações no Jornal Notícias da Amadora entre o Bizarro e o projecto Aparte, do qual foi fundador e membro. Os links que eu tinha para os textos já não funcionam, pelo que não é possível ler na integras o seu conteúdo, mas existem duas citações que sobreviveram e continuam pertinentes.

Salvo honrosas excepções, o autor português de banda desenhada é alguém que trabalha apenas para si próprio, e que tende a culpar o editor pela falta de sucesso comercial de livros sobre assuntos que só a ele interessam. É alguém capaz de jurar que tudo seria diferente se publicasse o seu trabalho em França, ou na Bélgica, ou nos Estados Unidos da América, mas que é incapaz de se afirmar em qualquer desses países, pois não consegue alcançar que para ser autor de BD é preciso mais do que apenas talento.

Salvo honrosas excepções, o autor português de banda desenhada está apenas a um passo do aspirante a autor.

Actualmente ao contrário de em 2003, altura em que os textos foram escritos, a internacionalização dos autores portugueses já é um realidade. O que permite aos autores que “emigram” dedicarem-se em exclusivo à banda desenhada. Mas, para aqueles que continuam a produzir só para o mercado interno continuam a ter de enfrentar um problema antigo, o qual ainda não foi resolvido apesar de, em termos de edição, a situação ter melhorado ao longo da última década.

A banda desenhada faz-se a partir de uma base de mercado, e de uma aposta num sentido e numa continuidade.

Feito o destaque ao mais relevante, deixem-me só salientar um aspecto que foi ignorado pelo Pedro, contrariamente ao APARTE o Bizarro enquanto projecto sobreviveu durante mais tempo e poderia ter continuado a sobreviver. Apesar do seu editor e fundador se ter afastado, existia um estrutura que permitiria manter o site em funcionamento, e serem encontradas soluções para o dinamizar e eventualmente rentabilizar. existia um núcleo de leitores significativos, o qual infelizmente se perdeu quando o site desapareceu, assim como todo o trabalho que lá estava publicado.

A continuidade do Bizarro era algo que não dependia de mim, dependia dos colaboradores e de quem ficou à frente do projecto, e tenho pena que não tenha continuado, ou pelo menos permanecido uma memória do que foi feito. O Bizarro só sobreviveu durante mais de seis anos e consegui evoluir porque, essencialmente, era o projecto pessoal de uma pessoa. Só a partir do momento em que passou a ter edição digital é que o Bizarro começou a ter um núcleo de colaboradores regulares, e o mérito e as responsabilidades eram divididas.

O Bizarro sobreviveu e poderia ter sobrevivido devido a um estranho paradoxo: qualquer projecto que vise a divulgação da banda desenhada nacional e dos autores nacionais, tem de ter como responsáveis pessoas que embora gostem de BD não sejam autores de BD.

Este estranho paradoxo deve-se a um facto muito simples: qualquer autor de nacional só faz BD nos tempos livres, pois necessita de ter uma profissão para pagar as contas. É praticamente impossível que para além de produzir BD com regularidade e do seu trabalho diário, também consiga ter tempo para se ocupar de outros trabalhos, e assumindo as responsabilidades que qualquer projecto de carácter associativo exige. Tendo em conta este facto o autor terá de optar entre o processo criativo ou o trabalho burocrático.

Foi esse o motivo do meu afastamento do cargo de editor, pretendia dedicar-me ao processo criativo, contudo derivado a circunstâncias fora do meu controlo, acabei por me afastar durante anos da mundo da banda desenhada. Mas naquela altura, a intenção era dedicar-me mais à criação de histórias e menos a tarefas burocráticas de edição e gestão de grupos de trabalho, estava saturado do esforço de ser autor/editor, em projectos não remunerados. Era um trabalho inglório e não me permitia fazer aquilo que realmente pretendia.

Por isso é que continuo a salientar a que qualquer projecto que vise divulgar autores, tem de ter envolvidas pessoas que não sejam autores, mas gostem de BD e estejam disponíveis para dedicar algum do seu tempo a um projecto; e que, acima de tudo, tenham disponibilidade para assumir responsabilidades, as quais na maior parte das vezes implicam um trabalho árduo que poucos vêem e ainda menos reconhecem.

A remuneração dos autores e de como se pode conceber projectos que tenham viabilidade (a médio e longo prazo) continua a ser um tópico fundamental para a BD nacional. Infelizmente continua a ser um dos tópicos que raramente são abordados em público, e menos ainda falando das questões mais melindrosas: tiragens, e outros detalhes técnicos.

Contudo a situação hoje em dia é melhor do que à uma década, mas o mercado continua a ser muito débil.

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